domingo, 7 de março de 2010

Já cansados no 2º dia...



Depois de 10 hs parados, sentados, cansados, acordados, estressados, calados, envergonhados, finalmente fomos liberados em meio as humilhações dos aduaneiros, e ainda por alguns quilometros a polícia Argentina nos seguiu e nos parou, fazendo com que os motoristas abrissem os guarda-volumes, revistassem as nossas bagagens e cobrassem comida como "propina", coca-cola e caixas de Bombons Garotos que levávamos para a longa viagem. Depois deste episódio, amargamos a mesmice do trânsito por longos e longos quilometros, numa interminável reta, numa paisagem sempre repetitiva, um horizonte sem fim, com um céu azul de doer os olhos e uma absurda falta de novidade.
Finalmente, as 17h, passamos por um túnel subaquático impressionante, sob o Rio Paraná, na cidade de Paraná, daí até Santa Fé foi um festival de pontes, muitas pontes, de cima de uma, enxergávamos outras cinco ou seis, parecia que todo o trânsito era sobre rios, observamos muito assoreamento, dragas retirando areia. Ao mesmo tempo chamou nossa atenção a arquitetura que predomina na cidade: construção de tijolos a vista, sem reboco, cores escuras, sombrias, antigas, muita sujeira, muito mau cheiro, muitas obras, operários, máquinas barulhentas, manilhas ao longo do caminho, carros velhos estacionados, rodando, buzinando, gritos, rios, águas, córregos, alagados, montes de areias, homens sujos, mulheres alheias aquilo tudo, andando grávidas, com outro bebê nas ancas, crianças sujas, ranhentas, em trajes sumários, caras encardidas, sorriso desconfiado, bocas sem dentes, brincando nas areias, nos entulhos, nas águas paradas, nos lixões a céu aberto, rindo, se pegando ao meio de bandos de Urubus, cães, porcos e gatos, todos se confundiam mas convivendo em perfeita harmonia, como se fosse muito normal. Mais a frente, sempre rumando ao centro da Argentina, avistamos prédios abandonados, depredados, cavalos pastando nas praças, nos terrenos, cães virando as lixeiras, então percebemos um favelão em meio a um lixão desumano, urubus, crianças disputando restos de alimentos. Continuando a viagem, sem esquecer o que vimos, mas já percebendo outras nuances, novamente nos deparamos com outros rios, afluentes, pontes, pontilhões, passarelas, pinguelas. Estávamos na cidade de Santa Fé, muito antiga, semi destruída, histórica, famosa nos livros de história da colonização gaúcha, porém deprimente. Moinhos velhos, fábricas desativas, Igrejas enormes e escuras, silos mofados permeiam a histórica cidade e logo ali, outra reta infinita e uma planície sem fim, pontuada de lagoas, pântanos, campinhos de futebol, casas velhas, galpões abandonados, construções em ruínas uma vegetação rasa e seca, torres com cata ventos, estradas de ferro abandonadas, postes de redes elétricas apoiados para não cair, sítios em decadência e nosso ônibus com destino a Córdoba e nos falaram que ainda teríamos 300 km de percurso. Mentira! Os meus colegas dormindo, eu com máquina de filme ainda, só havia 3 colegas com câmeras digitais na turma, mas quem tinha guardava a 7 chaves...Mas lá fora é tudo quase sempre igual, aqui e ali algum sinal de fé. Nas margens do caminho alguns pequenos santuários com cruzes, velas e flores em meio a retas infinitas. Mas eis que em meio esta monotonia surge uma gigante plantação de trigo que vai além de onde meus olhos alcançam. Ao longo, a direita, conecto com uma torre branca de uma linda igreja e fiquei pensando, imaginando, querendo saber: que cidade poderia ser aquela que mal se via? queria fotografar, mas ela ficou para trás e se perdeu na distância. Continuo minha leitura de viagem, enquanto todos dormem. Entre uma fazenda e outra muitos tubos enormes à margem da rodovia e eu me questionando: para que servirão? E penso que serão utilizados para canalizar as águas.
E lá, no meio de uma enorme plantação, percebe-se a sede de uma fazenda, casas, galpões, tratores, caminhão, um hangar, duas locomotivas desativadas o velho e o novo me confundindo, o lixo e o luxo convivendo.
Enquanto isso, lá fora, na rodovia uma monotonia sem fim, aqui dentro um silêncio assustador, como as pessoas podem dormir e deixar passar estas cenas lá fora?
Eu, mesmo incrédula, continuo olhando para fora e na medida do possível escrevendo para pensar depois, se isso foi real ou se foi sonho meu. Converso com o motorista e ele me informa que enormes rolos que se vê ao longe não são tubos, mas pasto para o gado, devidamente seco e enrolado para trata-los no inverno ou na entre safra, porque na Argentina os invernos são rigorosos.E que, também, há enormes reservatórios de água, que serão utilizados nas fazendas nos períodos de estiagem. Mas nossa viagem ia bem até chegarmos na cidade de São Francisco, onde paramos para jantar e ali mesmo nosso ônibus, o The Best, apresentou problemas mecânicos. Após jantarmos ficamos sabendo que o ônibus só seria consertado após um técnico da cidade de Erechim, RS, vir para São Francisco ver o defeito, pois o ônibus é novo, está com Garantia de fábrica, só a empresa responsável poderá abri-lo. Então sugerimos que nos mandassem um outro ônibus, mas ficamos sabendo que não havia nenhum outro disponível, o jeito era torcer para este técnico chegar rápido. Então a solução foi irmos até a rodoviária , comprar bilhetes no Expresson São Francisco e rumar até Córdoba que ficava a 215 km de distância de onde estávamos, durante o trajeto, foi uma loucura.
Jovens falantes, moças fumantes, pessoas viajando levando animais, mochilas sujas, jogavam as coisas no chão, amontoavam-se, olhavam bem para nossas caras, pareciam que zombavam e nós, nos olhávamos, incrédulas. Afinal, estamos invadindo a cultura de outro pais!!

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